sábado, 28 de março de 2015

Allerseelen | Dia de Finados

Paul Celan | Robert de Brose


Was hab ich getan?
Die Nacht besamt, als könnt es
noch andere geben, nächtiger als
diese.

5 Vogelflug, Steinflug, tausend
beschriebene Bahnen. Blicke,
geraubt und gepflückt. Das Meer,
gekostet, vertrunken, verträumt. Eine Stunde,
seelenverfinstert. Die nächste, ein Herbstlicht,
10 dargebracht einem blinden
Gefühl, das des Wegs kam. Andere, viele,
ortlos und schwer aus sich selbst: erblickt und umgangen.
Findlinge, Sterne, schwarz und voll Sprache: benannt
nach zerschwiegenem Schwur.

15 Und einmal (wann? auch dies ist vergessen);
den Widerhaken gefühlt,
wo der Puls den Gegentakt wagte.

O que foi que eu fiz?
Inseminei a noite como se pudera
outras inda haver, mais noturnas que
essa.

5 Voo de ave, voo de pedra, mil
estradas traçadas. Olhares
tolhidos e colhidos. O mar
provado, absorvido, abstraído. Uma hora,
animadumbrada. A próxima, uma luz outonal,
10 ofertada a um sentimento
cego, que do caminho veio. Outros, muitos,
ilocáveis, pesados por si mesmos: mirados e contornados.
Achados, estrelas, negros e todo linguagem: nomeados
a partir de um voto fragmentado em silêncio.

15 E uma vez (quando? também isto foi esquecido);
o gancho sentido
onde o pulso tentou o contra-ataque.

Elohim Creating Adam, William Blake, 1795
Elohim Creating Adam, William Blake, 1795

Notas

1. Die Nacht besamt: Irene Fußl (Geschenke an Aufmerksame, 2008, p. 62) vê neste poema uma alusão ao processo de criação levado a cabo por Lilith, que roubaria o sêmen dos homens para produzir a sua prole demoníaca e, de certa forma, incompleta, defeituosa, porque desprovida do divino. A indagação do v. 1, "O que foi que eu fiz?" leva a crer que o eu-lírico de certa forma arrepende-se de sua criação ou de sua ousadia como demiurgo imperfeito de um microcosmos pessoal.
2. Vogelflug (...) gepflückt: Tentei manter o andamento trocaico do original (Ff Ff Ff) e transformei, até onde pude, a aliteração em /b/ do v. 6 em /s/ e /t/. Parece-me que a clareza do /a:/ em Bahnen aponta para a extensão do céu, contemplado pelo olhar do eu-lírico, onde estão o caminho das aves e das pedras que lhes perseguem (?), o que me levou a procurar duas palavras que contivessem um /a/ em posição tônica e, portanto, mais longa, para reproduzir esse efeito. O eco de "estradas traçadas" pareceu-me, portanto, apropriado.
3. gekostet, vertrunken, verträumt: Pareceu-me importante preservar a repetição do ver- (um sufixo, em alemão que indica completude, ou a mudança de estado, da ideia expressa por um verbo ou um nome) em português. Note que "verträumen" não é apenas "passar o tempo sonhando", mas "sonhar com algo que não existe" ou que "existe apenas em sonhos", algo que é, portanto, uma "abstração". Esse mar com que sonha o eu-lírico é um mar que só existe em seus sonhos, ou seja, é a abstração de um mar.
4. seelenverfinstert: palavra inventada por Celan, que tentei reproduzir em português por "animadumbrar", i.e., "encobrir com a sombra da alma". "Seele", aqui, tem sentido ativo: "que a alma obumbrou, encobriu, obscureceu".
5. FindlingeSterne, schwarz und voll SpracheFindling é tanto um bloco de rocha que foi deslocado pela ação das geleiras (das marés, de lava etc.) quanto uma criança perdida, um órfão, encontrado a vagar, mas de quem nada se sabe. Preferi manter a tradução mais literal, "achado", porque pode se referir a ambos. Schwarz und voll Sprache pode ser tanto predicativo de Sterne quanto de Findling e "Sterne", prefeiro a última opção e, por isso, levei ao masculino plural.
6. den Widerhaken gefühlt, | wo der Puls den Gegentakt wagteDer Widerhake é um gancho, como um anzol e não, necessariamente, uma farpa (que seria Stachel, como em Stacheldraht).
É no sentido de "gancho" que Celan usa a mesma palavra em Hast du eing Aug: "Hast du ein Aug| für den Widerhaken| in meiner Herzwand". Gegentakt, por outro lado, deve-se referir a um contra-ritmo, um contra-ataque, como se o eu-lírico lutasse contra algo que tenta fazer com que ele se conforme a um determinado movimento/ destino/ direção, como se ele fora uma marionete, ou melhor, um peixe fisgado, que tenta se libertar do anzol, apenas para ser puxado de nova conta a sua vontade em direção à morte.

Outras traduções:

Dossier Paul Celan: Día de Muertos

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